O Ceará está passando por uma transformação econômica que vai muito além dos dados de PIB. O Estado passou a reunir, em uma mesma estratégia de desenvolvimento, serviços, tecnologia, energia renovável, indústria, infraestrutura portuária, conectividade internacional, logística e cooperativismo — uma combinação que começa a produzir uma característica econômica que merece ser estudada com mais profundidade: a transformação do Estado em uma plataforma produtiva capaz de atender não apenas ao Nordeste, mas também a mercados nacionais e internacionais. A análise é do empresário e economista Loredan Bernutty, especialista em inteligência competitiva e desenvolvimento regional.
Os números que sustentam essa leitura são concretos. O Produto Interno Bruto cearense cresceu 2,87% em 2025, acima do crescimento de 2,3% registrado pelo Brasil. O desempenho do Ceará também ficou acima do registrado por Bahia, São Paulo e Minas Gerais naquele ano. A projeção do Ipece para 2026 aponta crescimento de 2,89% para o PIB cearense, novamente acima da previsão de 1,83% para a economia brasileira. Mas o dado mais revelador não é o tamanho — é o ritmo de expansão dos serviços.
Em fevereiro de 2025, o Ceará chegou a registrar o quarto maior crescimento do volume de serviços entre os estados brasileiros — mostrando a força e a velocidade com que esse setor vem se expandindo. E na economia contemporânea, serviços não significam apenas comércio e restaurantes. Significam tecnologia da informação, computação em nuvem, segurança cibernética, processamento de dados, telecomunicações, engenharia, logística e gestão empresarial — uma economia de serviços muito mais sofisticada e integrada à indústria.
É justamente nesse ponto que a vantagem do Ceará se torna estratégica. Fortaleza possui uma das mais importantes estruturas de conectividade internacional do Brasil, com 16 cabos submarinos de fibra óptica ancorados na capital cearense, conectando o Brasil a diferentes continentes. Essa infraestrutura transforma Fortaleza em um importante hub internacional de conectividade e cria condições favoráveis para a instalação de empresas de tecnologia, computação em nuvem e data centers.
A energia renova o argumento. O Ceará gera aproximadamente 4,5 gigawatts em fontes eólica e solar, enquanto seu consumo médio é estimado em cerca de 1,65 gigawatt. A combinação entre disponibilidade de energia renovável e conectividade internacional cria condições particularmente interessantes para a atração de operações de processamento de dados e novos empreendimentos tecnológicos. É exatamente esse encontro entre energia limpa e tecnologia que explica por que o maior data center das Américas está sendo construído no Pecém — e não em outro lugar.
A infraestrutura digital também vem sendo ampliada. O Cinturão Digital do Ceará deverá passar de 200 Gbps para 400 Gbps, acompanhando justamente o crescimento da demanda por processamento de dados e inteligência artificial.
Para Bernutty, o Complexo do Pecém representa uma mudança de escala na estratégia econômica cearense. “O Ceará passa a possuir uma infraestrutura capaz de receber projetos industriais de grande porte e, simultaneamente, conectá-los a mercados externos. A Zona de Processamento de Exportação acrescenta uma dimensão ainda mais estratégica ao modelo, permitindo que o Estado desenvolva uma estrutura produtiva orientada também para o comércio internacional.”
A conclusão do analista é clara: “O Ceará pode estar construindo uma nova vocação econômica: ser uma plataforma de serviços, tecnologia, energia limpa, indústria e logística capaz de produzir para o Nordeste, para o Brasil e, cada vez mais, para o mundo. Essa talvez seja uma das grandes histórias econômicas do Ceará para a próxima década.”
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FONTE: Loredan Bernutty via Jornal do Belém (jornaldobelem.com.br)





